Ser forte não é deixar de sentir
29 Mai 2026 · Taciana Serafim
Quando eu perguntei para a Fernanda o que era ser forte, a resposta dela ficou comigo.
Porque, durante muito tempo, a gente aprendeu que força precisava parecer dureza. Que uma mulher forte era aquela que não chorava, não demonstrava, não se abalava, não parecia sensível.
Mas eu não acredito mais nisso.
Neste episódio, a gente fala sobre uma força que não precisa esconder sentimento. Uma força que pode existir na sensibilidade, na escuta, no cuidado, na autenticidade e na coragem de ser quem se é.
Quando pensamos em uma pessoa no poder, muitas vezes ainda imaginamos uma figura masculina. Isso diz muito sobre como fomos ensinadas a associar liderança com autoridade, imposição e firmeza.
O problema não está em ter essas características. O problema é acreditar que só existe uma forma legítima de ser forte.
Para muitas mulheres, o desafio é duplo. Se somos firmes, podemos ser julgadas como duras demais. Se somos sensíveis, podemos ser vistas como frágeis. Essa contradição faz com que muitas de nós passemos tempo demais tentando ajustar a própria personalidade para caber em expectativas que nem sempre fazem sentido.
E os dados mostram que essa pressão não é apenas uma sensação individual.
Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva mostrou que 36% das trabalhadoras brasileiras disseram já ter sofrido preconceito ou abuso no trabalho por serem mulheres. Quando apresentadas a uma lista de situações concretas de violência e assédio, 76% reconheceram já ter passado por um ou mais episódios no ambiente profissional.
Esse dado me atravessa porque ele mostra que muitas mulheres talvez nem nomeiem, de início, tudo o que enfrentam. Às vezes, a gente naturaliza a interrupção constante, o tom de desconfiança, a piada, o comentário sobre aparência, a cobrança excessiva, o descrédito ou a necessidade de provar competência o tempo inteiro.
Quando uma mulher precisa monitorar a própria voz, a própria emoção e até a forma como será interpretada, a autoestima no trabalho deixa de ser apenas uma questão individual. Ela passa a ser também uma questão de ambiente.
A Agência Brasil, ao divulgar a mesma pesquisa, destacou que entre as situações relatadas estavam gritos, xingamentos, supervisão excessiva, ameaças verbais e agressões físicas. Isso mostra que falar sobre força feminina no trabalho também exige falar sobre respeito, proteção e segurança.
Porque não deveria ser normal uma mulher precisar endurecer para sobreviver emocionalmente a um ambiente profissional.
Também não deveria ser normal uma mulher esconder sensibilidade para ser percebida como competente.
Um estudo global da Deloitte, o Women @ Work 2025, aponta que mais de um terço das mulheres entrevistadas, 34%, vivenciou comportamentos não inclusivos no trabalho no último ano. O tipo mais recorrente foram as microagressões.
Esse dado é importante porque microagressões nem sempre aparecem como grandes eventos. Muitas vezes, elas se acumulam em pequenas experiências diárias.
É a ideia ignorada até ser repetida por outra pessoa.
É a competência colocada em dúvida.
É a mulher chamada de difícil quando se posiciona.
É a emoção usada contra ela.
É a liderança feminina sendo julgada por critérios diferentes.
E tudo isso vai ensinando muitas mulheres a se adaptar demais.
A sorrir quando gostariam de discordar.
A suavizar frases para não parecerem duras.
A esconder cansaço para não parecerem frágeis.
A performar uma força que, no fundo, não deveria ser exigida dessa forma.
Quando falamos sobre autoestima feminina no trabalho, eu não penso em uma confiança artificial, pronta e inabalável. Penso em algo mais profundo.
Penso na possibilidade de uma mulher existir inteira.
Um ambiente que reconhece diferentes estilos de liderança.
Um ambiente que não pune mulheres por serem sensíveis.
Um ambiente que não exige que uma mulher pareça outra pessoa para ser respeitada.
Um ambiente que entende que competência pode vir com emoção, escuta, cuidado e firmeza ao mesmo tempo.
Para mim, autoestima também é isso: não precisar me deformar para ser respeitada.
É entender que eu posso ser competente e sensível.
Posso ser ambiciosa e cuidadosa.
Posso ser firme e afetuosa.
Posso sentir e continuar.
Posso ocupar espaço sem deixar de ser inteira.
Essa conversa com a minha irmã me lembrou que ser forte não é deixar de sentir.
Ser forte é continuar sendo quem eu sou, mesmo quando o mundo tenta me convencer de que eu deveria ser outra pessoa.
Quem está nessa conversa
As vozes do episódio
Taciana Serafim
Host do Taci Achando?
Executiva, mentora e criadora do Taci Achando?. Constrói conversas sobre carreira, autoestima e os bastidores que formam mulheres reais.
Fernanda Soares
Convidada · Líder em gestão de pessoas
Irmã da Taciana e referência em desenvolvimento humano. Trabalha com liderança, cultura e gente, traduzindo na prática o que aprendeu desde a infância sobre cuidar e formar pessoas.
Continue ouvindo
Esse texto nasceu de um episódio.
Ouça a conversa completa e mergulhe nas histórias que inspiraram essas reflexões.
▶ Ouvir episódio