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Liderança

Liderança, maternidade e a coragem de não se masculinizar para ser ouvida

14 Jun 2026 · Taciana Serafim

Existe uma pergunta que acompanha muitas mulheres ao longo da carreira, mesmo quando ninguém diz isso em voz alta:

Será que eu posso crescer sem deixar de ser quem eu sou?

No episódio do Taci Achando?, Camila Besseler responde a essa pergunta não com uma frase pronta, mas com a própria história.

Quando pedi que ela se apresentasse sem cargo e sem empresa, Camila não começou falando de marketing, liderança ou carreira. Ela disse que era esposa do Guilherme e mãe da Bela, da Manu e da Maria Antônia.

E isso não diminui em nada a executiva que ela é.

Pelo contrário.

Mostra uma mulher inteira.

Uma mulher que lidera, decide, estuda, constrói, se cobra, se emociona, materna, trabalha, prioriza e segue tentando fazer tudo isso com coerência.

Uma carreira que também nasceu do inesperado

Camila não chegou ao marketing por um plano perfeitamente desenhado.

Antes, pensou em engenharia química, farmácia bioquímica, caminhos que pareciam fazer sentido para uma menina que gostava de química e física. Mas a vida foi abrindo outras portas, e ela acabou na publicidade e propaganda.

E ali se apaixonou.

Começou em agência, pegou oportunidades, aceitou estágios, foi construindo experiência. Desde cedo, se conectou mais com planejamento, estruturação e gestão do que com o lado visual da criação.

Essa é uma parte importante da história porque, muitas vezes, a gente olha para mulheres em cargos altos e imagina uma trajetória linear, óbvia, sem desvios.

Mas quase nenhuma carreira real é assim.

Camila foi construindo a dela com oportunidade, necessidade, trabalho, escolhas possíveis e muita prática. Aos 23, 24 anos, já estava em posição de liderança. Era jovem, mulher, em uma indústria pesada, liderando pessoas mais velhas e aprendendo no caminho.

Ela mesma define como um processo muito “na raça”.

E talvez seja assim que muitas mulheres aprendem a liderar: fazendo, errando, ajustando e criando referência onde antes não havia nenhuma.

Quando sair da operação dói

Um dos momentos mais honestos da fala da Camila é quando ela conta que a ficha da liderança doeu para cair.

Porque liderar, para ela, significou sair da operação.

Significou deixar de fazer aquilo que dominava, aquilo que era o centro da sua rotina, para passar a desenvolver pessoas, sustentar conversas, abrir agenda, cuidar do crescimento do time.

Isso parece simples quando alguém olha de fora.

Mas quem gosta de construir, executar e ver as coisas acontecendo sabe que essa transição pode ser dura.

Liderar exige abrir mão de uma parte do controle.

Exige trocar a entrega individual pela construção coletiva.

Exige entender que o resultado já não depende apenas do quanto você faz, mas do quanto você consegue desenvolver outras pessoas para fazerem também.

Camila conta que, com cerca de 30 anos, já sentia esse peso. E sentia também a falta de referência. Não havia muitas mulheres em quem pudesse se espelhar. Os líderes eram homens, mais velhos, em ambientes onde ela precisou criar uma casca muito cedo.

E aqui existe algo que muitas mulheres conhecem bem.

Não é só liderar.

É liderar enquanto se prova o tempo todo.

A única mulher na mesa

Camila diz que já foi a única mulher na mesa várias vezes. Talvez em todas as empresas por onde passou.

E quanto mais a carreira cresce, mais desafiador isso fica.

Porque a cobrança muda. A responsabilidade aumenta. O julgamento também.

Ela conta que já ouviu de grandes executivas que precisaram aprender a “falar grosso” para serem ouvidas. Mas esse nunca foi o caminho que ela quis seguir.

Camila não quis se masculinizar para ocupar espaço.

Então encontrou outra forma: estudar mais, se preparar mais, estar dois ou três passos à frente.

Só que essa escolha também tem um custo.

Existe uma autocobrança enorme em precisar estar sempre 200% preparada. Em imaginar todas as perguntas possíveis. Em sentir que nunca é suficiente. Em achar que falta mais um livro, mais um curso, mais uma atualização.

Essa fala é muito importante porque mostra uma camada pouco visível da alta liderança feminina.

Não basta chegar.

Muitas vezes, a mulher sente que precisa provar todos os dias que merece estar ali.

E isso cansa.

A maternidade como escola de prioridade

Quando Camila fala da maternidade, ela não romantiza.

Ela diz que não é fácil. Que não são flores. Que é cansativo. Que existem noites mal dormidas, demandas diferentes, renúncias e escolhas.

Mas também diz que é possível.

Por muito tempo, ela acreditou que teria que escolher entre ser uma boa profissional ou uma boa mãe. Hoje, com três filhas, ela prova para si mesma que as duas coisas podem coexistir.

Não sem esforço.

Não sem organização.

Não sem abrir mão.

Mas podem.

Uma das imagens mais bonitas que ela traz é a dos pratinhos. Alguns são de vidro, outros de porcelana, outros de papel. A vida vai exigindo entender quais não podem cair de jeito nenhum e quais, se caírem, a gente junta depois.

A maternidade, para Camila, ensinou prioridade.

Ensinou também a dizer não.

A entender que nem todo evento vai caber, nem toda agenda será possível, nem toda expectativa externa precisa ser atendida.

E talvez essa seja uma das grandes viradas da vida adulta: quando a gente entende que escolher também é renunciar.

A liderança que começa dentro de casa

Em um momento muito sensível do episódio, Camila diz que o mais difícil na maternidade não é ficar sem dormir.

É se tornar uma pessoa melhor para educar.

Porque educar uma criança também coloca um espelho na nossa frente. A gente passa a perceber os próprios limites, as próprias incoerências, as próprias dificuldades de controle emocional.

Como exigir de uma criança pequena uma calma que às vezes nem nós, adultos, conseguimos ter?

Essa fala atravessa a maternidade, mas também atravessa a liderança.

Porque liderar também é isso: entender que a forma como a gente age ensina. Que a postura comunica. Que a coerência importa. Que os valores aparecem menos no discurso e mais no comportamento.

Camila se preocupa com o exemplo que deixa para as filhas. Com o que vai ficar registrado. Com o tipo de mulher, profissional e pessoa que elas vão ver nela.

E isso diz muito sobre a liderança que ela escolheu exercer.

Uma liderança com régua alta, sim.

Mas também com intenção limpa.

Discordar sem quebrar a confiança

A relação entre Camila e Mirle Ferraz é uma das partes mais bonitas da conversa.

Elas discordam. Discutem ideias. Ajustam caminhos. Às vezes uma cede, às vezes a outra cede. Mas existe uma base que não quebra: confiança.

Camila diz que um liderado pode desconfiar de tudo, menos da intenção do líder.

Essa frase resume muito do que sustenta uma boa relação de trabalho.

Porque metas, projetos e entregas podem ser discutidos. Caminhos podem mudar. Estratégias podem ser revistas. Mas quando a intenção é colocada em dúvida, algo trinca.

Entre Camila e Mirle, parece existir uma complementaridade muito viva. Uma confia nos power skills da outra. Uma sabe onde a outra é mais forte. Uma abre espaço para a outra ocupar.

E talvez seja isso que falte em tantos ambientes: mulheres que não precisem competir entre si para serem reconhecidas.

Mulheres que possam crescer juntas.

O topo também precisa ser redesenhado

Quando a conversa chega à mCMOs, Camila aparece como parte de um movimento que nasce de uma inquietação coletiva: por que tão poucas mulheres chegam à alta liderança em marketing?

Ela fala sobre como essa dor não era só de uma pessoa. A cada convite feito, outras mulheres reconheciam o mesmo incômodo. A mesma falta de espaço. A mesma necessidade de falar sobre problemas mais complexos de negócio, carreira e liderança.

E isso importa.

Porque não basta dizer que o marketing tem muitas mulheres se essas mulheres não estão nas cadeiras onde as decisões mais estratégicas são tomadas.

Não basta celebrar a presença feminina na base se o topo continua estreito.

A mCMOs surge como uma tentativa de criar uma roda mais segura, mais profunda e mais preparada para discutir o que acontece nesse degrau quebrado entre senioridade e alta liderança.

Uma comunidade para dar voz, fortalecer repertório, gerar protagonismo e construir referência.

Ser forte sem deixar de ser inteira

A história da Camila é sobre liderança, mas também é sobre integridade.

Sobre não abrir mão dos próprios valores para caber em uma sala.

Sobre não precisar falar grosso para ser respeitada.

Sobre estudar, se preparar e construir autoridade, mas também reconhecer o peso dessa cobrança.

Sobre ser mãe de três meninas e executiva sem aceitar que uma parte precise anular a outra.

Sobre entender que força não é dureza.

Força também é prioridade.

É coerência.

É vulnerabilidade.

É saber dizer não.

É desenvolver pessoas.

É cuidar da intenção.

É seguir ocupando espaços maiores sem pedir licença para ser inteira.

E talvez seja exatamente isso que torne a trajetória da Camila tão necessária de ser ouvida.

Porque quando uma mulher chega mais longe sem abandonar quem ela é, ela não abre caminho só para si.

Ela abre uma possibilidade para muitas outras.

Quem está nessa conversa

As vozes do episódio

TS

Taciana Serafim

Host do Taci Achando?

Executiva, mentora e criadora do Taci Achando?. Constrói conversas sobre carreira, autoestima e os bastidores que formam mulheres reais.

CB

Camila Besseler

Convidada · Liderança executiva

Liderança que organiza casas, faz combinados, estrutura terrenos e sustenta times com firmeza e cuidado, sem se masculinizar para ser ouvida.

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Esse texto nasceu de um episódio.

Ouça a conversa completa e mergulhe nas histórias que inspiraram essas reflexões.

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