Amar, mudar as coisas e abrir caminho para outras mulheres
14 Jun 2026 · Taciana Serafim
Tem gente que entra em uma sala e espera ser chamada para participar.
Mirle Ferraz parece ser o tipo de pessoa que entra, olha ao redor, entende o problema, puxa uma cadeira e começa a resolver.
No episódio do Taci Achando?, quando perguntei quem ela era sem cargo, sem empresa e sem currículo, Mirle trouxe uma frase que carrega muito do jeito dela de existir: “amar e mudar as coisas”.
E talvez essa seja mesmo uma das melhores formas de explicar sua trajetória.
Mirle fala de marketing como quem fala de movimento. Desde cedo, ela foi encontrando na comunicação um lugar possível para criar, transformar e colocar ideias de pé. Ainda criança, fez cursos de informática, design gráfico, robótica, hardware, inglês, tudo aquilo que talvez uma menina de 11 anos nem soubesse nomear como carreira, mas que já ia abrindo caminhos.
Enquanto outras pessoas talvez vissem só programas, ferramentas e tarefas, ela via possibilidade.
Foi fazendo flyer, cartaz, logo, material para voluntariado. Foi imprimindo fotos do Orkut em folhas de caderno para vender para as amigas. Foi descobrindo que gostava do visual, da comunicação, daquilo que conecta pessoas e ideias.
Sem saber, Mirle já estava treinando uma das habilidades que mais marcariam sua carreira: enxergar pontas soltas e conectar tudo em um ecossistema que funcione.
Liderança antes do crachá
Uma das coisas mais bonitas na fala da Mirle é perceber que a liderança dela não começou quando alguém deu um cargo.
Começou na postura.
Ela mesma conta que, no início da carreira, era a primeira a chegar, fazia café, ligava computador, atendia telefone, ia falar com o cliente, entendia o problema e abraçava a responsabilidade como se o negócio fosse dela.
Tem gente que espera a descrição do cargo para agir. Mirle parecia agir primeiro e deixar que o cargo alcançasse depois.
E isso foi abrindo espaço. Primeiro em uma mesa, depois em outra. De repente, ela estava perto de diretores, de clientes, de pessoas tomando decisões. Não porque forçou uma presença vazia, mas porque entregava algo que toda empresa precisa: alguém que não apenas aponta problemas, mas tenta resolver.
Quando chegou em um ambiente onde viu mulheres em posições de liderança sem precisarem se masculinizar, sem precisarem diminuir outras mulheres, algo virou chave.
Ela olhou e pensou: “Eu quero fazer isso.”
E talvez muitas mulheres precisem justamente disso: ver que existe um jeito de crescer sem abandonar quem se é.
Ser forte começa em ser boa
Quando a conversa entrou no tema da força, Mirle trouxe uma visão que fica ecoando. Antes de ser forte, uma pessoa precisa ser boa.
Boa de verdade. Boa no jeito de lidar com as outras pessoas, no coração, na intenção.
Porque, para ela, técnica se ensina. Comunicação se ensina. Resistência se constrói. Dá para ensinar alguém a lidar com uma reunião difícil, com um e-mail mal educado, com uma cobrança atravessada, com um momento de pressão.
Mas não dá para ensinar alguém a ser genuinamente boa com o outro.
Essa fala diz muito sobre a liderança que Mirle acredita. Uma liderança que não romantiza o trabalho, não ignora pressão, não finge que o mundo corporativo é sempre gentil. Mas também não aceita que, para sobreviver nele, a gente precise virar uma pessoa hostil.
Força, nesse olhar, não é endurecer até deixar de sentir. Força é ter estrutura para atravessar as pancadas sem devolver violência para quem está ao lado.
Quando confiança vira método de trabalho
A relação entre Mirle e Camila Besseler também aparece no episódio como um exemplo raro e necessário: duas mulheres que trabalham juntas, discordam, discutem ideias, ajustam rotas e seguem confiando uma na outra.
Não existe relação profissional madura sem conflito. O ponto é o que sustenta esse conflito. No caso delas, parece ser a confiança. Confiança na intenção, no caráter e na competência uma da outra.
Mirle reconhece que Camila abre caminhos, organiza a casa, faz combinados com o conselho e estrutura o terreno. Mas também conta sobre o momento em que precisou ocupar novas cadeiras, responder diretamente ao negócio, reforçar combinados, mudar rotas e amadurecer como liderança.
É bonito ver uma mulher falando sobre outra mulher não como ameaça, mas como referência. E é ainda mais bonito ver que a admiração não tira a autonomia. Pelo contrário: fortalece.
A dor que virou comunidade
Em um dos momentos mais importantes do episódio, Mirle fala sobre o nascimento da mCMOs, uma comunidade criada a partir de uma dor real: a falta de espaços para mulheres de marketing discutirem problemas complexos de negócio, alta liderança e crescimento de carreira.
Ela fala sobre uma pergunta que deveria incomodar mais gente: por que o marketing tem tantas mulheres, mas tão poucas chegam ao topo? Por que a presença feminina diminui quando falamos de cargos de alta liderança? Qual é o degrau quebrado entre uma posição sênior e uma cadeira de CMO, VP ou CEO?
A mCMOs nasce dessa vontade de desatar o nó. Não para criar mais um grupo bonito no papel, mas para abrir uma roda onde mulheres possam falar de governança, marca, múltiplos canais, globalização, tomada de decisão, conselho, pressão e estratégia.
Um espaço onde a troca não precise ser rasa. Um espaço onde a exposição seja cuidada. Um espaço onde mulheres possam ganhar voz, protagonismo e referência.
Mirle fala sobre portal, colunas, encontros, estudo, treinamento e comunidade. Mas talvez o mais forte não esteja nas entregas planejadas. Está no motivo.
Uma dor encontrou outra dor. E quando isso acontece, vira propósito.
O marketing também é sobre quem a gente leva junto
A história da Mirle lembra que carreira não é só cargo, promoção e entrega. É também sobre o jeito como a gente ocupa os espaços.
É sobre entrar em uma sala e não esquecer de abrir caminho para outras pessoas. É sobre resolver problemas sem perder a humanidade. É sobre ser ambiciosa sem precisar ser cruel. É sobre amar e mudar as coisas.
Talvez seja isso que torne a fala da Mirle tão potente: ela não separa competência de cuidado. Não separa estratégia de intenção. Não separa liderança de valores.
E em um mercado que muitas vezes ensina mulheres a endurecerem para serem respeitadas, ouvir alguém dizer que antes de ser forte é preciso ser boa soa quase como um respiro.
E também como um convite. Para construir mais. Para confiar mais. Para ocupar mais. E para mudar as coisas sem deixar de amar aquilo que nos move.
Quem está nessa conversa
As vozes do episódio
Taciana Serafim
Host do Taci Achando?
Executiva, mentora e criadora do Taci Achando?. Constrói conversas sobre carreira, autoestima e os bastidores que formam mulheres reais.
Mirle Ferraz
Convidada · Liderança em marketing & co-fundadora da mCMOs
Liderança de marketing movida pelo desejo de amar e mudar as coisas. Conecta pontas soltas, abre espaço para outras mulheres e acredita que antes de ser forte é preciso ser boa.
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Esse texto nasceu de um episódio.
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